A individuação no mito de Eros e Psique – parte I

O mito de Eros e Psique esconde e revela a própria evolução da Alma em busca de si mesmo, tendo seu caminho regido por instintos ou pulsões essenciais da mente humana: o Amor, o desejo, o prazer, a busca por si mesmo e da centelha divina contida em nós mesmos.  Conta a história do mito:
Psique era a mais bela de três filhas, o número três tem um significado sagrado. Na santíssima trindade o terceiro é o espírito santo, o que sugere a Psique, apesar de humana, algo de divindade. Por isso, era a mais bela das três irmãs. Psique por conta de sua beleza era adorada como uma deusa, mais um reforço a sua “essência” de origem divina, percebida, mas não manifestada. Sua beleza causava uma curiosidade e consequente devoção, sendo confundida por muitos com a deusa Afrodite. A Psique tinha o poder de causar encantamento ao ponto de despertar a fúria da deusa Afrodite, esta que era a deusa da beleza e do amor, Psique seria como seu espelho. Afrodite de uma grande beleza despertava o desejo dos homens, inclusive de Eros o deus do amor. Eros e Afrodite são deuses do amor instintivo, do desejo,  do amor inconsciente.  Afrodite enciumada  e se sentindo ameaçada por Psique, ordena que Eros a acerte com sua flecha para que ela se una ou case com um monstro horrendo.  Afrodite, o desejo que  manda.  Isso sugere uma ferida gerando no inconsciente da Psique uma imagem que lhe faça não enxergar a beleza do amor, assim como todos nós carregamos em alguma proporção essa ferida relacionada ao amor que tivemos de pai e mãe, que na infância, é o amor inconsciente, como de Eros, e como na infância, temos o desejo impulsivo, que manda. Porém, Eros ao tentar cumprir sua tarefa fere a si mesmo! Ao tentar ferir Psique fere a si mesmo!  Eros se apaixona perdidamente por Psique. Eros apaixonando-se por Psique,  experimenta o Amor altruísta, o amor pelo amor.  Ao se apaixonar por Psique, Eros se apaixona pelo próprio amor em si  mesmo, esse é o significado de ferir a si mesmo. E passa a ter seu processo de individuação, o seu desenvolvimento e amadurecimento, do Amor inconsciente para o amor consciente.
Psique , ao entregar-se ao seu destino , entrega-se numa relação de amor por uma ordem superior, simbolizada na imagem do Oráculo que determina o casamento aos seus pais, para que ela fosse levada a um monte e deixada sozinha para que se unisse a um ser monstruoso, Psique obedece, desprovida do seu próprio desejo, de sua vontade, se entrega ao seu destino.  Ao se apaixonar por Psique, Eros a leva para seu castelo, luxuoso, onde vozes passam a serví-la. O luxo, a luxúria, a voz do desejo. Eros aparece somente a noite e com um capuz, para que Psique não veja seu rosto, porque Eros teme que Afrodite descubra o descumprimento de sua ordem de casá-la com um monstro, quando ele próprio casou-se com ela. Na verdade, Eros e Psique são semelhantes, pois são totalidades do amor, e ainda ambos têm o amor ferido,  e ao cobrir seu rosto Eros evita que Psique o veja como um espelho, ou a projeção. Psique não busca Eros por desejá-lo, mas por desejar o prazer que ele lhe proporcionava nas noites de amor, no escuro, ela não via a face de Eros, ela não conhecia o amor, e não sabia se ele era um monstro ou não.

Eros pede que Psique não tente ver sua face, porém Psique, incentivada por suas irmãs, ignora o pedido de seu amado e uma noite com uma vela (luz), ilumina seu rosto e vê sua face, a mais bela que já viu. A luz representa a consciência trazida por Psique. Surpreendida por não ver um monstro, mas um Deus, Psique acorda Eros que a abandona ao constatar que Psique não obedeceu ao seu pedido. Neste momento, tanto Eros, quanto Psique, entram definitivamente em seus processos de individuação. Psique consciente de seu amor e desejos por Eros sofre, sofre, e por isso passa a experimentar a dor do seu amor ferido,  seu desejo reprimido e em sequência irá ter as 4 tarefas impostas por Afrodite para que possa novamente ter o amor de Eros, a  sua individuação, assim como são 4 as etapas alquímicas.  Eros experimenta o sofrimento, a dor da perda, do amor também ferido e isola-se, o que significa um voltar-se para dentro, para seu inconsciente para que veja o amor em si mesmo e o torne consciente. As tarefas determinadas por Afrodite para que Psique seja perdoada por seu ato abusivo, de ser bela e ter-lhe roubado o amor de Eros, são para Psique, as etapas para uma purificação do Amor  e uma clareza sobre si mesmo e seus desejos, pois em cada tarefa ela reforça em si mesmo o seu amor e o seu desejo por Eros. Assim como o isolamento de Eros e sua ferida que sangra é a depressão gerada por um amor ferido, por isso o sofrimento de Eros é também uma purificação do seu amor, transformando o amor inconsciente para um amor consciente. Menos divino e mais humanizado.

continua

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2 pensamentos sobre “A individuação no mito de Eros e Psique – parte I

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